Celebrando o Padroeiro São Pedro, aqui na Paróquia da Afurada, temos a coincidência do dia do domingo ser o 29 de junho e por isso o próprio dia de São Pedro é celebrado na nossa liturgia na Igreja Universal, juntamente com São Paulo, celebrando estes dois grandes apóstolos – São Pedro e São Paulo.
Situados na Palavra do Senhor, partilho agora este momento, no qual celebramos a Eucaristia, momento de fé e oração, que continuará logo à tarde com a procissão.
E temos presente, neste ano de 2025, o Jubileu: um tempo de júbilo e alegria, por celebrarmos os 2025 anos do nascimento de Jesus. Com este tema — “Peregrinos da Esperança” — vamos sendo acompanhados até o dia 6 de janeiro de 2026.
Situemo-nos com São Pedro e, nesta comunhão com São Paulo, acolhamos o convite para viver a alegria de sermos peregrinos da esperança, no nosso caminhar de cada dia. E é nesse peregrinar, esse caminhar diário com São Pedro, que deixo três referências a três momentos: o início do caminho, o caminho percorrido, e a meta segura de uma esperança que não morre.
1. O Início do Caminho
Ouvimos no Evangelho o momento marcante da caminhada dos amigos de Jesus — os Apóstolos — especialmente São Pedro. Jesus pergunta:
“Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?”
“E vós, quem dizeis que Eu sou?”
É diante dessa pergunta que Pedro, em nome dos Apóstolos, responde:
“Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo. Tu és Deus, o anunciado, que aqui veio, se encontra, que se tornou um de nós, para dar a vida por nós, para nos salvar.”
Essa é a profissão de fé, central e angular. E Jesus diz:
“Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja.”
Claro que olhando para Pedro na relevância do caminhar da nossa igreja nascente, o primeiro Papa, situaremos esta pedra que é importante nunca esquecer.
Esta pedra é a fé.
Eu sou cristão porque afirmo: “Jesus é o Cristo.”
“Messias” (em hebraico) significa “ungido”, que em grego se traduz por Cristo. Como São Pedro, cada um de nós que aqui está, quem nos ouve, é interpelado a fazer brotar do coração essa afirmação:
“Tu és o Messias. Tu és o Cristo. Tu és o Filho de Deus.” Tu és Deus. Deus que assumiu a nossa condição humana, que está connosco, que nos ama e que caminha connosco.
Mas esta pergunta de Jesus aos apóstolos e a Pedro não se fez certamente sem o olhar de Jesus.
Esse início da caminhada de Pedro é marcado por um olhar: o olhar de Jesus. Um olhar terno, amoroso, paciente — que transforma a vida de Pedro. Que faz com que ele mude a sua vida, transforme a sua vida em pescador de homens. De pescador passarás a pescador de homens.
Lembremos aquele momento da negação de Pedro, durante a paixão: quando o galo cantou, Jesus olhou para ele. E Pedro chorou. Esse olhar amoroso o tocou e o transformou. Que nós também sintamos o olhar de Jesus sobre nós:
um olhar que acolhe, que levanta, que convida a caminhar.
No hino jubilar, cantamos:
“Deus olha com ternura e paciência.”
Pedro experimentou esse olhar de ternura, de paciência e de amor de Jesus em direção a ele. E por isso se tornou pescador de homens.
Também nós, no nosso dia a dia, precisamos desse olhar. A nossa vida, sem o olhar de Deus, não é a mesma. Como Pedro, deixemo-nos transformar por esse amor.
Que nós sintamos esse olhar apaixonado do Senhor por nós.
E que então também possamos, como Pedro, ir transformando a nossa vida e o nosso viver. Era esta primeira referência que eu deixava aqui nesta igreja em Afurada, situados nesta bela paisagem da Foz do Rio Douro e situando-nos tão bem como o mar diante de nós. O Senhor olha para ti.
Tu precisas do olhar do Senhor. A tua vida sem o olhar de Deus não é a mesma. Busca o olhar de Deus que te busca.
2. O Caminho Percorrido
E Pedro não quis mais viver sem o Senhor.
Para quem iremos sem o Senhor?
Sem ti, a vida é melhor, a vida tem mais sentido, a vida tem um horizonte melhor, tem outra esperança. Não tem o Senhor.
Que a Paróquia da Afurada seja esse lugar de caminhar com alegria — não por obrigação, mas por corações ardentes, apaixonados pelo Senhor.
A primeira leitura mostra Pedro preso, acorrentado. Mas o anjo do Senhor aparece e diz:
“Levanta-te depressa, põe o cinto, as sandálias, o manto, e segue-Me.”
Mesmo na adversidade, Pedro levanta-se e caminha, guiado por Deus e orientado.
Ser peregrinos da esperança não é ter uma vida sem dificuldades.
É, sim, manter a fé no meio delas, continuar o caminho com coragem, com alento.
Que cada um de nós se sinta tocado por essa Palavra:
“Levanta-te!”
Não fiques desanimado. Não fiques caído.
Levanta-te e caminha.
E é isto de Pedro, no meio da adversidade, que se levanta de pé e caminha, orientado e guiado, pelo alento que brota de Deus e do Senhor ressuscitado, que tão bem somos convidados assim a sê-lo na nossa vida e a sê-lo no nosso viver.
No caminhar em Igreja, no caminhar em comunidade, também no caminhar em sociedade deste mundo do qual nós fazemos parte, nas circunstâncias adversas que porventura possam acontecer, possamos sentir que o Senhor também nos toca, também está ao nosso lado. Levanta-te, não fiques frustrado, não fiques aí desalentado e desanimado.
Levanta-te e continua. E continua com entusiasmo também o empenho da fé e da pastoral aqui com o Pároco dedicado, o senhor Padre Almeiro, na comunhão com aqueles que são seus colaboradores, o Diácono e todos que aqui se cruzam.
Mas precisamos de todos. Precisamos de todos, todos temos lugar, todos somos necessários e importantes.
E celebrar o Padroeiro é reacender esta alegria comprometida da fé, também no seio da paróquia e da pastoral. Aonde também nós nos cruzamos uns com os outros, para dar alento, para dar ânimo, para nos entusiasmarmos – vivida em comunidade, partilhada com os outros.
Quando alguém estiver mais desanimado ou desalentado, obviamente muita da realidade que nos atormenta e inquieta no caminhar do nosso mundo, do mundo global, e obviamente situados também depois no caminhar da nossa vida.
Mas também aí, nós sermos uns para os outros. Não sejamos nunca de quem empurra para baixo, de quem coloca correntes, de quem põe portas fechadas.
Sejamos nós, como pessoas e entidades, uns com os outros, somos capazes de ajudar a levantar, de abrir portas, de soltar amarras e de ser capazes de construir algo de bom e belo na nossa vida.
3. A Meta: Uma Esperança que Não Morre
Para que não fique até à tarde, termino aqui o terceiro apontamento, não muito longo. São Pedro e São Paulo…
São Paulo, na segunda leitura, já à beira do martírio, afirma:
“Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. Agora, aguardo a coroa da justiça que o Senhor me dará.”
E São Paulo, peregrinos de esperança, uma esperança de um caminho que se inicia, um caminho que se vai percorrendo, chega à hora da morte.
Hoje celebramos o dia de São Pedro e São Paulo, celebramos o seu martírio. Não é no mesmo ano, mas é no mesmo dia, e por isso em Igreja celebramos assim, junto.
Refere ele, vejo que a minha hora está eminente:
“Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. Agora, aguardo a coroa da justiça que o Senhor me dará.”
E continua a dizer que eu sei que o Senhor me dará a coroa da glória.
Não é uma coroa material, de um prémio, de uma medalha, ali colocada.
Mas é esta esperança. Peregrinos de esperança, não podemos esquecer isto, senão não cumprimos a nossa missão em Jesus. Em Jesus.
É a certeza da esperança que se cumpre — a esperança escatológica, a esperança da vida eterna.
Peregrinos da Esperança não esquecem que este caminho nos conduz a Jesus, que é a Porta da Salvação.
“Eu sou a porta. Quem passar por Mim será salvo.”
Essa é a certeza: a vida não termina na morte.
Mesmo quando pecamos, mesmo quando falhamos, mesmo na hora da morte — Deus não nos abandona.
É esta esperança segura que sustentou São Pedro e São Paulo no martírio, e que nos deve sustentar hoje, também a agradecermos a sementeira desta esperança.
Que a nossa vida seja sementeira desta esperança.
Uma esperança que não engana, que não morre, no caminhar na vida das pessoas, de todos os dias.
Assim seja,
Bispo Dom Roberto Rosmaninho Mariz
Paróquia da Afurada, 29 junho 2025
Eucaristia das 10h00