O Dia Mundial das Missões foi instituído em 1926 pelo Papa Pio XI, que acolheu uma proposta da Obra para a Propagação da Fé. O ato fundador é um rescrito da Sagrada Congregação dos Ritos, de 14 de abril desse ano, assinado pelo cardeal Vicco. Pio XI fixou o penúltimo domingo de outubro como dia de oração e de recolha de ofertas para as missões, a celebrar em todas as dioceses, paróquias e institutos do mundo católico. Assim se tem mantido desde então.O espírito deste dia remonta a sete anos antes, quando Bento XV publicou a carta apostólica Maximum illud (30 de Novembro de 1919). A Primeira Guerra tinha deixado territórios de missão sem missionários, muitos presos, outros expulsos. O Papa criticou os missionários que se ocupavam mais de alargar a influência da sua pátria do que as fronteiras do Reino de Deus, e insistiu na formação de clero local: «Em nação alguma e em povo nenhum ela é estrangeira», escreveu da Igreja. O missiólogo José Antunes da Silva, da Congregação do Verbo Divino, considera que este texto representou uma viragem eclesiológica.A ideia de missão alargou-se nas décadas seguintes. O Concílio Vaticano II, no decreto Ad gentes, afirmou que a Igreja é missionária por natureza, e com isso a missão deixou de ser uma atividade entre outras para passar a ser a identidade da Igreja. A primeira mensagem de um Papa para este dia apareceu em 1963, escrita por Paulo VI, que viria a ligar a evangelização à promoção humana, com uma frase que ficou: «onde chega o Evangelho, chega igualmente a caridade». João Paulo II, na Redemptoris missio, acentua a frase e pensamento de Paulo VI na Evangelii Nuntiandi, de 8 Dezembro 1975, n. 41: «O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres, ou então se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas». Bento XVI avisou que uma missão sem caridade se arrisca a passar por filantropia. Francisco pediu uma Igreja em saída e chamou discípulo missionário a cada batizado.Durante décadas, uns países enviavam missionários e outros recebiam-nos. Hoje todos enviam e todos recebem. Portugal, que foi das grandes potências de envio, conta agora com sacerdotes e religiosos vindos de várias partes do mundo, alguns deles de comunidades que missionários portugueses ajudaram a fundar. Bento XVI chamou a isto um providencial intercâmbio de dons.É neste contexto que a Conferência Episcopal Portuguesa escreve, na sua mensagem do passado dia 1 de outubro relativa a esta efeméride: «Portugal é também, hoje, terra de missão». Os bispos lembram que a missão já não se mede em distâncias: passa pelas escolas, pelos locais de trabalho e por quem se afastou da fé. Pedem às comunidades que se interroguem sobre quem está hoje à espera de que lhe anunciem Jesus Cristo. Agradecem aos missionários portugueses espalhados pelo mundo e recordam os que deram a vida pela missão.«Um em Cristo, unidos na missão»É o tema escolhido pelo Papa Leão XIV para este centenário, próximo do lema que adotou quando foi ordenado bispo, In Illo uno unum (“Em um só Cristo somos um”), tirado de um sermão de Santo Agostinho sobre o Salmo 127. O nosso Papa começa por salientar a unidade entre os cristãos e chama-lhe a primeira responsabilidade missionária da Igreja. A unidade dos discípulos está orientada para a missão, escreve, citando São João: «para que o mundo creia». Pede por isso que as comunidades acolham a diversidade como riqueza.Leão XIV deixa ainda um apelo à oração e ao apoio concreto às missões, que serão uma grande ajuda para levar o Evangelho aos mais pobres, e pede à Igreja que renove o fogo da vocação missionária e entre com coragem numa nova era missionária.«É a missão que nos move»Na Diocese do Porto, o centenário coincide com o arranque do Sínodo diocesano 2026-2028. A carta pastoral que o convoca, Ser Porto: Formar, Reformar, Transformar, assinada por D. Manuel Linda e pelos bispos auxiliares, tem por divisa «É a missão que nos move».A divisa estabelece uma ordem. Primeiro vem o desejo de que o Evangelho chegue a mais gente, e só depois formar, reformar e transformar: formar quem anuncia, renovar o que já existe, deixar que o encontro com Cristo mude pessoas e comunidades. Francisco escrevera algo próximo na Evangelii gaudium, quando sonhava com uma opção missionária capaz de mexer nos costumes, nos horários e na linguagem da Igreja, pondo tudo ao serviço da evangelização muito para lá de autoconservação: uma renovação eclesial inadiável (cf.Ev. G., 27).Este nosso Outubro de 2026 é um trecho desse caminho. A semana de oração, as vigílias, os testemunhos de quem regressou e o ofertório do domingo, 18 outubro, Dia Mundial das Missões, dão-lhe rosto.(inf: Secretariado Diocesano das Missões do Porto)